Descanse em paz.
Depois que atirei na minha própria cara e minha alma finalmente saiu daquele meu corpo medonho, tudo melhorou. Fiquei mais serena, mais bonita, menos gorda e mais transparente. A melhor parte é que posso voar e dormir em uma nuvem fofa. O problema que só agora, depois de morta, que percebi que era muito ligada aos prazeres da terra. Sempre gostei de comida boa e fico aqui lembrando dos biscoitinhos em formato de bichinhos que minha mãe fazia, da sopa de capeletti que eu comia na casa da minha vó lá em Porto Alegre, da empadinha da Confeitaria Princesa, do gosto da mostarda Rib’s e a deliciosa sensação de nariz queimando, do Chilli às quintas no Exquisito, do japa nos finais de semana, do coraçãozinho que só meu pai sabia fazer...
Também sinto saudade dos cheiros bons, do cheiro de Paloma Picasso da minha mãe; do cheiro de café fresco de manhã, saindo do apartamento vizinho ao meu; do cheiro de limpeza do meu apartamento nos dias de faxina; do cheiro de pipoca com manteiga no cinema; do perfume do meu amor...E quando alguém, com o mesmo perfume dele, passava do meu lado eu fechava os olhos, aspirava fundo e sorria.
Sinto saudade da música, tudo aquilo que eu ouvi, da minha infância à minha idade adulta, do trash ao Bach, do Iron Maiden à Shakira, da música Árabe ao jazz, do Trem da Alegria ao classic rock...Lembro do prazer que eu sentia quando descobria uma música nova e a ouvia 367 vezes até enjoar.
Sinto saudade das sensações boas como um cafuné ou uma massagem, do arrepio com um beijo na nuca. De estourar as bolhas daqueles protetores de plástico, da sensação de calor e relaxamento ao entrar na sauna, da sensação de tomar o primeiro copo de cerveja bem gelada em um dia quente, de se cobrir com um cobertor bem quentinho em um dia frio, do abraço de alguém querido.
E sinto falta das coisas bonitas de se ver: gente bonita, gatos gordos e preguiçosos dormindo, um dia ensolarado, uma paisagem bonita, o pôr do sol, as gotas da chuva escorrendo pela janela, a lua cheia, as cores, as luzes, os brilhos...
Sinto falta de tudo isso. Sinto falta da minha família, não queria estar assim tão sozinha. Me matei por causa do vazio, o problema que o vazio continua comigo. Só que agora não tem mais volta e agora vou passar minha eternidade tocando harpa sentada em uma nuvem gorda...
Saco.
Escrito por Angel às 11h09
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