PÉ NA BUNDA
Hoje, meio dia em ponto como sempre, fui almoçar com as meninas do meu trabalho. E o assunto de hoje foi: "Dar ou Receber um fora!", cada uma tinha uma opinião, algumas delas disseram que preferiam mil vezes dar um fora a ter que receber. Eu prefiro mil vezes levar o pé na bunda, detesto terminar relacionamentos, odeio dar o fora. Sempre sofro pra cacete. Ter que explicar para pessoa que o amor acabou, ou que o amor nunca existiu, ou que você imaginou uma coisa e a coisa se tornou outra, ou que você conheceu outra pessoa. Imagina falar isso? "Olha meu bem, estou te deixando porque conheci outra pessoa.", é foda. E acho que todo mundo já tomou um fora bem tomado, e isso deixa cicatrizes. Muitas.
E eu fico imaginando o quanto a outra pessoa está sofrendo, pois quando tomamos um pé na bunda a princípio tentamos entender o que foi que deu errado, depois começamos a nos sentir culpados e achamos que a culpa é nossa, nos sentimos feios, chatos, desinteressantes, sem valor nenhum. E vêm os pensamentos: "se eu tivesse aceitado o convite daquele jantar da tia-avó dele nada disso teria acontecido", "se eu não tivesse tido ciúme daquela amiga dele do espanhol", "se eu não tivesse engordado aquele meio quilo", "se eu tivesse topado aquele acampamento com os amigos dele na Conchinchina", milhões de pensamentos. Aí a auto-estima desaba e você começa a se sentir o ser humano mais horrível de todo o planeta e todo dia se olha no espelho e pensa: "é, tudo culpa desse nariz torto!", "culpa desse pneuzinho!", "ahhh, se meus dentes fossem mais brancos, nada disso teria acontecido...". Depois dessa fase de auto-flagelação, vem a fase "ah se eu tivesse uma arma!", o ódio te domina, você imagina o ser lá com outra pessoa e deseja ardentemente que os dois sofram um acidente fatal de carro. Eu sou assim, a fase sofrimento dura pouco, a fase ódio dura uma eternidade. Por um lado, acho bom, que ao invés de sair atirando por aí, uso a raiva de uma forma positiva, começo a me cuidar mais, fazer exercício aos montes. Porque quero que o infeliz me veja depois de uns tempos e pense: "Putz olha só o que eu perdi!", sim sei que é uma ilusão minha, mas isso me ajuda a seguir em frente. E já superei diversos pés na bunda. E depois da fase raiva, vem a fase medo. Você sente medo de nunca mais encontrar alguém tão especial quanto aquela pessoa que te rejeitou e fica com medo de morrer sozinho e infeliz. Mas depois da fase medo, tem a fase esperança. E nessa fase você está quase curado do "pé na bunda". O melhor é quando você encontra alguém que você descobre que é mil vezes mais especial que aquele ser desprezível que te jogou no lixo, e descobre que tem tantas afinidades com essa pessoa e a vida volta a ter sentido.
E mesmo conhecendo todas essas fases longas e tortuosas do "pé na bunda", prefiro mil vezes passar por isso de novo a ter que fazer outra pessoa passar por isso.
* * *
Hoje estou na fase "descoberta".
Escrito por Angel às 13h02
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